Quando a relação não sustenta a falha

Nem toda relação termina por falta de sentimento. Algumas terminam quando surgem falhas que não conseguem ser sustentadas.

Gestos mal colocados, falas fora de tom, um erro pontual. Pequenos acontecimentos que, em certos vínculos, acabam atingindo tudo o que havia sido construído até ali. Nesses casos, o problema não está exatamente nos erros, mas na estrutura da relação.

Relações emocionalmente maduras toleram falhas e permitem reparação. Relações mais frágeis tendem a operar por retirada. Essa retirada raramente é explícita. Ela aparece como silêncio, frieza repentina ou como uma presença que perde densidade, mesmo permanecendo.

O parceiro percebe que algo foi quebrado, mas não consegue nomear o quê. Passa a andar com cuidado excessivo, tentando não errar de novo. Aos poucos, instala-se uma sensação persistente de não ser suficiente, mesmo quando houve entrega real.

Não se trata de falta de desejo, mas sim dificuldade em sustentar a vulnerabilidade que acompanha o encontro. Algumas pessoas conseguem receber carinho e atenção, mas não conseguem permanecer quando algo falha.

O afeto, então, passa a funcionar sob condição, e vínculos assim raramente amadurecem. Reconhecer esse funcionamento não é acusar o outro, mas compreender o limite daquele vínculo.

Nem toda relação precisa ser consertada. Algumas apenas precisam ser compreendidas para que possam ser deixadas para trás com menos culpa e mais lucidez.

Em certos momentos, sustentar esse tipo de experiência sozinho pode ser difícil.

Marcel Cardoso · CRP 06/161086

Psicologia Clínica · Terapia Psicodinâmica

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