O silêncio do outro nem sempre é rejeição. Às vezes, o barulho está em você, e ele é antigo.
A gente aprende a ler sinais ao longo da vida. O problema é que nem sempre está lendo o presente. Muitas vezes, está lendo a ativação de uma memória.
Um atraso vira desinteresse.
Uma pausa vira afastamento.
Um silêncio vira rejeição.
E antes de qualquer confirmação, o corpo já reagiu com ansiedade, incômodo e urgência de reação. Vontade de cobrar, pressionar, e o medo de perder.
E é aqui que a coisa se complica.
Nem sempre atos impulsivos vem de má intenção, mas sim do medo intenso de ser deixado. A reação aparece como tentativa de proteção. Como se fosse possível evitar a dor antes que ela aconteça.
Isso explica, mas não justifica certas ações agressivas contra o outro. E essa diferença importa.
O apego inseguro pode não esperar para ver. Ele antecipa a interpretação da situação, sente com intensidade e já reage sem ao mesmo verificar. E, nessa pressa, transforma uma possibilidade em certeza.
O outro nem disse nada, não confirmou nenhuma tese ainda, mas, por dentro a rejeição está constatada.
Quando você reage a uma interpretação como se fosse um fato, começa a agir em cima de algo que talvez nem exista. E, não raro, cria exatamente aquilo que mais teme.
O medo de perder leva ao controle.
O controle sufoca.
O outro se afasta.
No fim, parece confirmação. Mas, em parte, foi construção.
Isso não significa ignorar o que você sente. O incômodo é real. O desconforto também. Mas o significado que você dá a isso nem sempre é.
E é aí que existe espaço.
Nem todo silêncio é rejeição.
Nem todo afastamento é abandono.
Nem todo desconforto é um aviso sobre o outro.
Às vezes, é só um padrão antigo tentando se repetir.
Perceber isso não resolve tudo, mas pode ser o principio de uma mudança na sua posição.
Marcel Cardoso
Psicólogo Clínico | CRP: 06/161086
