O Mito da Conversa: Por que falar nem sempre resolve os conflitos?


Uma fonte de tensão bastante comum em casais não é a falta de conversas, mas algo mais sutil: quando existem conversas, porém elas se mostram infrutíferas.

Isso revela dois fenômenos ao mesmo tempo. Em primeiro lugar, o casal se dispõe a conversar para resolver os problemas. Há uma tentativa de manter a relação ativa, de cuidar do vínculo e encontrar algum caminho possível.

Mas, em segundo plano, e aqui costuma estar o impasse, cada pessoa passa a defender o próprio ponto de vista sem perceber que, no processo, deixa de escutar aquilo que o parceiro ou a parceira está tentando comunicar. Quando isso acontece, a comunicação trava.

É como se cada lado estivesse conversando sozinho, porém acompanhado. Existe uma conversa, mas não necessariamente uma conexão.

Esse tipo de situação confronta um mito bastante difundido de que conversar, por si só, resolve os problemas de um casal. Embora o diálogo seja necessário, ele é apenas o ponto de partida para a elaboração dos conflitos e para a reconstrução da proximidade afetiva.

A conversa exige algo além de expor as próprias necessidades. Tão importante quanto falar é conseguir escutar.

Escutar, nesse contexto, não significa abrir mão das próprias posições ou concordar com tudo que o outro diz. Significa, antes, suspender momentaneamente a própria defesa para tentar compreender o que o outro está tentando comunicar: suas demandas, suas expectativas e também suas limitações.

Quando isso começa a acontecer, a conversa pode finalmente destravar. O diálogo deixa de ser apenas uma disputa por espaço e passa a se tornar uma tentativa real de entendimento.

Também é importante lembrar que uma relação é formada por mais de uma pessoa. Isso significa que esse movimento precisa existir, em alguma medida, de ambos os lados.

Quando apenas um dos parceiros se dispõe a escutar e considerar o outro, a relação tende a se tornar assimétrica. Um lado passa a ceder mais do que gostaria, enquanto o outro permanece protegido em sua própria posição.

Nessas circunstâncias, pode surgir a impressão de que o problema foi resolvido. Mas, na vida relacional, quando uma questão se resolve apenas para um dos lados, ela raramente desaparece de fato.

Aquilo que não pôde ser verdadeiramente elaborado costuma permanecer presente na dinâmica do casal, às vezes silenciosamente, até encontrar outra oportunidade de se manifestar.

Muitas relações são abaladas não por falta de amor, mas pelo acúmulo de conversas em que cada pessoa tentou se fazer entender sem conseguir realmente escutar o outro. E quando o encontro deixa de acontecer, mesmo a conversa mais longa pode se tornar apenas duas solidões tentando se explicar.

Nesses momentos pode ser útil contar com um espaço de conversa mediado por um terceiro. Esse tipo de escuta pode ajudar a tornar mais claras as necessidades de cada lado e abrir caminhos que, dentro da dinâmica cotidiana da relação, acabam se perdendo.

Se essa reflexão fez sentido para você, explore outros textos no Demasiado Humano, onde diferentes aspectos das relações humanas são pensados com mais calma.

Marcel Cardoso – CRP: 06/161086

Psicologia Clínica – Terapia Integrativa com Base Psicanalítica

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