Por que o silêncio parece ser nossa única defesa?

Uma coisa que tem surpreendido as pessoas, tanto para o mal quanto para o bem, é a espontaneidade e a sinceridade, especialmente quando envolvem algo que desagrada. É muito comum encontrar relatos de pessoas que buscam caminhos alternativos para não dizer uma verdade que dói, ou que simplesmente abandonam a possibilidade de serem verdadeiras em relação aos próprios incômodos com o outro.

Isso aparece em situações aparentemente simples: gestos que geraram constrangimento, hábitos que causam desgosto, ou frases ditas pelo outro que machucaram. Entre o incômodo e a comunicação do desprazer, existem conflitos psíquicos que precedem a fala.

Um dos eixos mais importantes que orientam esse funcionamento é o que chamo aqui de princípio de autopreservação, e que Donald Winnicott formulou como “Continuidade do Ser”. A psique tende a se defender daquilo que é percebido como ameaçador, tanto ameaças concretas quanto simbólicas. Nesse sentido, levantar a hipótese de que o silêncio diante de um incômodo ou de uma ofensa pode funcionar como defesa não é absurdo: muitas vezes, calar-se é uma tentativa de se proteger daquilo que se antecipa como perigoso.

De maneira concreta, a pessoa pode estar se defendendo de uma reação ainda mais inadequada do outro. Em certos contextos, isso é até inteligente, sobretudo quando se sabe que o outro reage de forma agressiva ou desorganizadora. Em outros casos, porém, a defesa é mais simbólica: um temor que já não encontra correspondência direta na realidade atual, mas que foi construído ao longo da vida para garantir integridade psíquica.

Por exemplo: optar pelo silêncio na infância como proteção em um ambiente doméstico onde o falar podia ser interpretado como provocação. Da mesma forma, em relacionamentos amorosos marcados por abusos de diferentes categorias, o silencio muitas vezes se estabelece como ‘casca’ protetora. Em ambos os casos o sujeito abdica de sua espontaneidade para evitar retaliações e tentar manter sua sobrevivência psíquica.

A questão se desloca quando percebemos que esse padrão de defesa sobrevive à própria ameaça. O que antes era uma estratégia de salvamento torna-se um anacronismo: um recurso legítimo aplicado ao contexto errado. Esse descompasso pode produzir um estado de alerta contínuo, sem necessidade objetiva.

A autopreservação é vital. É o que nos mantém vivos como sujeitos individuais e coletivos. A repetição também é necessária: sem repetir, não se aprende, não se desenvolve, não se integra. O problema não está nesses mecanismos em si, mas nos excessos, sobretudo quando operam de maneira inconsciente e desatualizada em relação à realidade atual.

Nessas condições, a pessoa pode até se sentir protegida, mas paga um custo: deixa de existir plenamente em determinadas situações, abdica da possibilidade de se colocar e sustenta vínculos onde o silêncio passa a falar mais alto do que qualquer palavra.

Em quais relações o silêncio tem sido uma escolha consciente, e em quais ele se tornou apenas um hábito difícil de romper?

Marcel Cardoso
Psicólogo clínico · CRP 06/161086
Psicoterapia de orientação psicanalítica

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