Um fenômeno da vida que acomete muitas pessoas (talvez mais do que você imagina) é o de amar alguém e, ainda assim, querer terminar com essa pessoa. Isso é comum, primeiro, porque o amor não é o único alicerce que sustenta uma relação. E também porque amar uma pessoa não significa, necessariamente, amar estar em um relacionamento com ela. Sim: essas coisas podem ser bem diferentes.
Dentro da Psicologia, existem várias pontas que eu poderia puxar para falar desse fenômeno. Admito que, quando decidi escrever sobre isso, fiquei em dúvida sobre qual delas escolher. Então fui pelo caminho que, para mim, é o mais seguro, porque é o que eu mais estudo e trabalho: ambivalência emocional.
Ou, como eu gosto de chamar, “querer, mas não saber se quer”. E tem um verso da Gal Costa que diz exatamente isso, e que eu já comentei em outro texto: “Quero é ir embora, quero dar o fora, e quero que você venha comigo.”
A gente costuma imaginar que as decisões afetivas deveriam ser lineares: ou você ama e fica, ou não ama e vai embora. Mas a mente não funciona assim. A nossa vida psíquica recebe estímulos e experiências de diferentes partes da vida e da relação, e disso vão se formando pensamentos, imagens, sensações e decisões.
Você pode nutrir afeto, carinho e proteção por alguém, e isso produzir algo simples como: “eu amo essa pessoa”. Ao mesmo tempo, certas atitudes, valores ou modos de existir do outro podem não estar em sintonia com os seus, e aí aparecem pensamentos como “somos diferentes”, “não dá desse jeito” ou até um “não sei” que insiste.
E tem um ponto muito comum, e muitas vezes silencioso: relações com amor podem ser, ainda assim, assimétricas. Uma pessoa se doa mais, se preocupa mais, sustenta mais, tenta mais. Com o tempo, isso gera desgaste, sensação de não ser reconhecido e, em alguns casos, uma espécie de tristeza irritada: não é que o amor acabou, é que viver a relação começou a custar caro demais.
Dentro da nossa cabeça, essas partes não ficam necessariamente integradas. Elas aparecem em momentos diferentes do dia, de acordo com o que acontece na relação, até que uma delas começa a ganhar mais destaque. É aí que surge algo como: “eu amo essa pessoa, mas quero terminar”. Esse pensamento é totalmente plausível quando existe afeto real, mas também existe a percepção de assimetria, desalinhamento de planos, falta de reciprocidade, ou qualquer outro elemento que, com o tempo, pesa mais do que o próprio amor.
E aqui entra uma palavra que eu gosto: força. Porque, assim como no universo, a nossa mente também vive relações de força. Só que, na vida emocional, “força” não é só argumento racional. Às vezes é culpa pela ideia de ferir alguém que você ama. Às vezes é medo do luto, porque terminar implica perder não só a pessoa, mas a vida que você imaginou. Às vezes é uma fantasia de reparação, a ideia de que, se você insistir mais um pouco, tudo se ajeita. E às vezes é o próprio vínculo: o amor continua ali, representativo o suficiente para interromper a decisão, mesmo quando uma parte de você já percebe que não dá para ficar do mesmo jeito.
Amar uma pessoa e querer terminar a relação é algo humano. No fundo, isso costuma indicar que existem outras coisas além do amor pesando na balança. E isso importa, porque não se vive só de amor: também se vive de reciprocidade, simetria, projeto, respeito, cuidado, possibilidade de futuro. A vida não é simples a ponto de caber em um manual. E certas decisões pedem menos autojulgamento, mais autoaceitação, e a coragem de olhar com calma para o peso de cada coisa na sua vida, do jeito que ela está agora.
Talvez ajude se você se fizer perguntas como:
O que, exatamente, está pesando contra a continuidade, e há quanto tempo isso pesa?
Eu amo a pessoa ou eu amo a ideia do que a relação poderia ser?
Eu estou tentando salvar a relação por amor, ou por culpa?
Se nada mudasse daqui a seis meses, eu conseguiria continuar?
O que eu perco se eu for embora, e o que eu perco se eu ficar?
Este texto não tem a função de te dar uma resposta pronta. Mas espero que ajude a compreender o que você pode estar vivendo e a trazer mais clareza sobre os próximos passos.
No fim, vale lembrar: antes de ser parte de um casal, você é você. A relação é parte da sua vida, não a sua vida inteira.
Marcel Cardoso – CRP: 06/161086
Psicologia Clínica – Terapia de Orientação Psicanalítica
