Analise da ambivalência emocional na musica de Gal Costa
A ambivalência é um fenômeno humano fundamental. Ela se manifesta quando dois afetos opostos coexistem em relação ao mesmo objeto, sem que um anule o outro, e sem que o conflito entre eles se resolva facilmente.
Amor e ódio, desejo e recusa, vontade de ficar e impulso de ir embora podem existir ao mesmo tempo, com igual intensidade e sentido.
Algumas experiências afetivas tornam esse funcionamento especialmente visível. A música “Você Não Entende Nada”, na interpretação de Gal Costa, é uma delas. Sem explicar, sem teorizar, a letra dá forma a esse estado psíquico em que afetos contraditórios não se alternam, mas convivem.
“Eu quero é ir-me embora, eu quero dar o fora, E quero que você venha comigo.”
Aqui está o princípio da ambivalência. Ela quer ir embora, mas ao mesmo tempo quer que o outro venha junto, e ainda assim quer ir embora. Quer as duas coisas.
Quer ir embora, terminar, destruir o vínculo e ir para o mundo. Mas essa fantasia, que tem sentido próprio, é imediatamente contraposta por outra fantasia igualmente carregada de sentido, “quero que você venha comigo”.
As duas coisas coexistem. As duas fazem sentido. E as duas entram em conflito. É a fórmula clássica: “Não te aguento, mas não vivo sem você.”
“Eu quero botar fogo nesse apartamento” é o trecho mais complexo e rico da letra.
Diferente de “quero ir embora” e “quero que você venha comigo”, que se distribuem em duas frases, “botar fogo nesse apartamento” concentra a ambivalência inteira em uma única frase, e carrega, simultaneamente, dois significados implícitos.
De um lado, é meio de destruição, raiva em chamas. De outro, é desejo intenso, carnal e visceral, tesão em seu estado mais humano.
Botar fogo nesse apartamento significa, ao mesmo tempo “Quero acabar com tudo e reduzir essa relação a pó” e “Quero sentir você até a temperatura do apartamento subir no teto.”
É a frase mais bonita da letra justamente por isso. Ela não precisa de continuação. Funciona sozinha para cada estado de ânimo. Vou acabar com tudo isso agora. E vou me acabar nisso tudo agora. É a frase em que a ambivalência se encontra.
Isso, entretanto, não significa elaboração nem sustentação. Significa apenas que dois afetos opostos encontraram um apartamento para morar juntos. Cabe ao dono da casa decidir, consciente ou inconscientemente, se irá negociar a paz entre eles ou instigar o conflito entre ambas as partes.
A ambivalência não pede uma decisão imediata. Ela pede um ego capaz de suportar essa alternância de opostos sem fugir nem incendiar o mundo.
Marcel Cardoso · CRP 06/161086
Psicologia Clínica · Terapia Psicodinâmica
