A dor que se sente quando se perde um relacionamento
A experiência de término pode se tornar mais difícil quando toca diretamente a autoestima. Nesses casos, podem surgir sentimentos de culpa excessiva (“a culpa foi minha”, “eu não devia ter sido assim”), autodepreciação, vergonha, fixação no ex-parceiro e, em alguns casos, uma tristeza mais intensa e persistente.
Aqui vale lembrar algo fundamental: não temos controle sobre as decisões do outro. A pessoa tomou a decisão que tomou por motivos próprios. Claro, revisar nossas atitudes pode ser importante para buscar relações diferentes no futuro. Mas isso não garante que alguém ficaria.
Às vezes, a pessoa simplesmente queria ir embora, e iria mesmo que você tivesse agido de outra forma. Além disso, esse tipo de autoanálise tende a ser mais produtivo depois que os picos emocionais diminuem. No auge da dor, o que costuma falar mais alto não é reflexão, mas culpa e autojulgamento.
Dois extremos também podem aparecer: a idealização ou a desvalorização total do parceiro.
De um lado, pensamentos como “nunca mais vou amar alguém assim”. Do outro, “essa pessoa nunca significou nada para mim”.
Ambos costumam ser modos do self lidar com a dor. Por isso, vale tentar voltar ao centro e colocar os pés no chão. O outro realmente nunca foi importante? Ou isso é uma forma de se proteger da dor? Você realmente nunca mais encontrará alguém assim? Então como encontrou essa pessoa em primeiro lugar?
Calma nessas horas. Emoções influenciam fortemente nossos pensamentos, e no término estamos emocionalmente ativados. Muitos julgamentos nascem mais dos afetos do que de uma leitura realista da situação.
Também pode haver negação. A pessoa age “como se não tivesse acabado”. Em geral, ela sabe que acabou, mas ainda dói demais aceitar. Trata-se de uma defesa psíquica contra um mal-estar intenso.
A questão não é se essa defesa é boa ou ruim em si. Em alguns momentos, ela pode ser necessária como forma de autopreservação. O problema surge quando se estende além do que é funcional, impedindo a elaboração da perda e mantendo a pessoa presa a uma relação que já terminou.
No final das contas, quando a perda atinge a autoestima, o sofrimento não é apenas pela relação que acabou, mas pelo que ela representava dentro de nós. Isso não se resolve com conclusões rápidas nem com julgamentos duros sobre si mesmo. Em geral, o que ajuda é conseguir atravessar esse tempo com menos violência interna, reconhecendo que sentir-se abalado não é fraqueza, mas efeito de um vínculo que teve importância. A elaboração não vem de se convencer de algo, mas de, pouco a pouco, conseguir sustentar a própria experiência sem se destruir por ela.
Marcel Cardoso · CRP 06/161086
Psicologia Clínica · Terapia Psicodinâmica
