Arquivo de Ensaio - Demasiado Humano https://demasiadohumano.marcelcardoso.com.br/category/ensaio/ My WordPress Blog Sun, 03 May 2026 19:16:52 +0000 pt-BR hourly 1 Entre o silêncio do outro e o medo de rejeição https://demasiadohumano.marcelcardoso.com.br/entre-o-silencio-do-outro-e-o-medo-de-rejeicao/ https://demasiadohumano.marcelcardoso.com.br/entre-o-silencio-do-outro-e-o-medo-de-rejeicao/#respond Sun, 03 May 2026 19:16:51 +0000 https://demasiadohumano.marcelcardoso.com.br/?p=167 O silêncio do outro nem sempre é rejeição. Às vezes, o barulho está em você, e ele é antigo. A […]

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O silêncio do outro nem sempre é rejeição. Às vezes, o barulho está em você, e ele é antigo.

A gente aprende a ler sinais ao longo da vida. O problema é que nem sempre está lendo o presente. Muitas vezes, está lendo a ativação de uma memória.

Um atraso vira desinteresse.
Uma pausa vira afastamento.
Um silêncio vira rejeição.

E antes de qualquer confirmação, o corpo já reagiu com ansiedade, incômodo e urgência de reação. Vontade de cobrar, pressionar, e o medo de perder.

E é aqui que a coisa se complica.

Nem sempre atos impulsivos vem de má intenção, mas sim do medo intenso de ser deixado. A reação aparece como tentativa de proteção. Como se fosse possível evitar a dor antes que ela aconteça.

Isso explica, mas não justifica certas ações agressivas contra o outro. E essa diferença importa.

O apego inseguro pode não esperar para ver. Ele antecipa a interpretação da situação, sente com intensidade e já reage sem ao mesmo verificar. E, nessa pressa, transforma uma possibilidade em certeza.

O outro nem disse nada, não confirmou nenhuma tese ainda, mas, por dentro a rejeição está constatada.

Quando você reage a uma interpretação como se fosse um fato, começa a agir em cima de algo que talvez nem exista. E, não raro, cria exatamente aquilo que mais teme.

O medo de perder leva ao controle.
O controle sufoca.
O outro se afasta.

No fim, parece confirmação. Mas, em parte, foi construção.

Isso não significa ignorar o que você sente. O incômodo é real. O desconforto também. Mas o significado que você dá a isso nem sempre é.

E é aí que existe espaço.

Nem todo silêncio é rejeição.
Nem todo afastamento é abandono.
Nem todo desconforto é um aviso sobre o outro.

Às vezes, é só um padrão antigo tentando se repetir.

Perceber isso não resolve tudo, mas pode ser o principio de uma mudança na sua posição.

Marcel Cardoso

Psicólogo Clínico | CRP: 06/161086

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Quando a relação esfria: o que pode reacender o vínculo https://demasiadohumano.marcelcardoso.com.br/quando-a-relacao-esfria-o-que-pode-reacender-o-vinculo/ https://demasiadohumano.marcelcardoso.com.br/quando-a-relacao-esfria-o-que-pode-reacender-o-vinculo/#respond Fri, 06 Mar 2026 16:23:55 +0000 https://demasiadohumano.marcelcardoso.com.br/?p=137 Amor não se sustenta apenas como sentimento. Ele também aparece nos gestos, nas escolhas cotidianas e na maneira como duas […]

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Amor não se sustenta apenas como sentimento. Ele também aparece nos gestos, nas escolhas cotidianas e na maneira como duas pessoas se aproximam ao longo do tempo. Em outras palavras, amar também é algo que se faz.

Casais que mantêm algum calor de afeto costumam preservar pequenas formas de conexão como um toque mais demorado, um olhar que encontra o outro, uma risada compartilhada, uma conversa que não está ali apenas para resolver tarefas do cotidiano.

Quando a relação começa a esfriar, esses sinais tendem a mudar. Os beijos diminuem, os abraços ficam mais breves, o sexo se torna mais espaçado e as conversas passam a girar principalmente em torno de questões práticas.

Isso não significa necessariamente o fim do amor. Muitas vezes indica apenas um esfriamento do vínculo.

O próprio Sigmund Freud viveu algo semelhante. No início de sua relação com Martha Bernays, as cartas trocadas entre os dois eram intensas e apaixonadas. Com o passar dos anos de casamento, a correspondência tornou-se mais prática, por vezes reduzida a assuntos do cotidiano.

De certo modo, isso é esperado nas relações duradouras. Toda fogueira tende a diminuir de intensidade à medida que a lenha se transforma em brasa. A questão não é evitar que o fogo diminua, isso faz parte da vida, mas perceber se ainda existe disposição para alimentá-lo.

Às vezes, eventos marcantes reaproximam o casal: uma viagem, uma mudança importante na vida ou até mesmo uma dificuldade enfrentada juntos. Em outros casos, são pequenos gestos cotidianos que ajudam a reacender a proximidade.

Nem sempre é preciso um grande acontecimento. Às vezes, o vínculo começa a aquecer novamente quando duas pessoas voltam a prestar atenção uma na outra.

Relações atravessam fases, mudanças e reacomodações ao longo do tempo. Se essa reflexão fez sentido para você, há outros ensaios no blog sobre vínculos, conflitos e encontros na vida amorosa.

Marcel Cardoso – CRP: 06/161086

Psicologia Clínica – Terapia Integrativa com Base Psicanalítica

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O abraço também é uma forma de linguagem https://demasiadohumano.marcelcardoso.com.br/o-abraco-tambem-e-uma-forma-de-linguagem/ https://demasiadohumano.marcelcardoso.com.br/o-abraco-tambem-e-uma-forma-de-linguagem/#respond Fri, 06 Mar 2026 16:05:56 +0000 https://demasiadohumano.marcelcardoso.com.br/?p=135 O ser humano é mente e corpo ao mesmo tempo. O que pensamos e o que sentimos não acontecem separados. […]

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O ser humano é mente e corpo ao mesmo tempo. O que pensamos e o que sentimos não acontecem separados. Tudo ocorre dentro de um mesmo organismo. Por isso, amar e ser amado envolve conexão para além das palavras. Envolve também o corpo.

Beijo é afeto. Sexo também. Abraço é encontro.

Esses gestos representam mais do que simples movimentos físicos. São formas de presença. O abraço, por exemplo, é um enlace entre dois corpos que se reconhecem naquele momento. Quando duas pessoas se abraçam com alguma abertura para o encontro, muitas coisas podem acontecer sem que nenhuma palavra seja dita.

A respiração de um pode influenciar a do outro. O ritmo do corpo pode desacelerar. Às vezes, quando um se acalma nos braços do outro, essa calma se torna visível. Tudo isso não acontece apenas pelo contato físico, mas pela intenção que acompanha esse gesto.

A intenção muda o sentido do afeto.

Não se trata de um abraço automático entre tarefas, nem de um gesto apressado que logo se desfaz. Às vezes, permanecer alguns instantes ali, apenas sentindo a presença do outro, pode reativar uma forma de conexão que as palavras nem sempre conseguem produzir.

Isso não resolve conflitos por si só, nem substitui conversas difíceis que precisam acontecer. Mas pode lembrar algo simples e profundo ao mesmo tempo: antes de serem dois lados de uma discussão, são dois corpos que um dia escolheram se aproximar.

E, às vezes, reencontrar essa proximidade começa por algo tão simples quanto permanecer um pouco mais no abraço.

Pequenos gestos muitas vezes revelam mais sobre o vínculo do que longas conversas. Se esse tema despertou alguma reflexão, outros textos no blog exploram diferentes aspectos da vida afetiva e relacional.

Marcel Cardoso – CRP: 06/161086

Psicologia Clínica – Terapia Integrativa com Base Psicanalítica

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O Mito da Conversa: Por que falar nem sempre resolve os conflitos? https://demasiadohumano.marcelcardoso.com.br/o-mito-da-conversa-por-que-falar-nem-sempre-resolve-os-conflitos/ https://demasiadohumano.marcelcardoso.com.br/o-mito-da-conversa-por-que-falar-nem-sempre-resolve-os-conflitos/#respond Fri, 06 Mar 2026 15:21:04 +0000 https://demasiadohumano.marcelcardoso.com.br/?p=132 Uma fonte de tensão bastante comum em casais não é a falta de conversas, mas algo mais sutil: quando existem […]

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Uma fonte de tensão bastante comum em casais não é a falta de conversas, mas algo mais sutil: quando existem conversas, porém elas se mostram infrutíferas.

Isso revela dois fenômenos ao mesmo tempo. Em primeiro lugar, o casal se dispõe a conversar para resolver os problemas. Há uma tentativa de manter a relação ativa, de cuidar do vínculo e encontrar algum caminho possível.

Mas, em segundo plano, e aqui costuma estar o impasse, cada pessoa passa a defender o próprio ponto de vista sem perceber que, no processo, deixa de escutar aquilo que o parceiro ou a parceira está tentando comunicar. Quando isso acontece, a comunicação trava.

É como se cada lado estivesse conversando sozinho, porém acompanhado. Existe uma conversa, mas não necessariamente uma conexão.

Esse tipo de situação confronta um mito bastante difundido de que conversar, por si só, resolve os problemas de um casal. Embora o diálogo seja necessário, ele é apenas o ponto de partida para a elaboração dos conflitos e para a reconstrução da proximidade afetiva.

A conversa exige algo além de expor as próprias necessidades. Tão importante quanto falar é conseguir escutar.

Escutar, nesse contexto, não significa abrir mão das próprias posições ou concordar com tudo que o outro diz. Significa, antes, suspender momentaneamente a própria defesa para tentar compreender o que o outro está tentando comunicar: suas demandas, suas expectativas e também suas limitações.

Quando isso começa a acontecer, a conversa pode finalmente destravar. O diálogo deixa de ser apenas uma disputa por espaço e passa a se tornar uma tentativa real de entendimento.

Também é importante lembrar que uma relação é formada por mais de uma pessoa. Isso significa que esse movimento precisa existir, em alguma medida, de ambos os lados.

Quando apenas um dos parceiros se dispõe a escutar e considerar o outro, a relação tende a se tornar assimétrica. Um lado passa a ceder mais do que gostaria, enquanto o outro permanece protegido em sua própria posição.

Nessas circunstâncias, pode surgir a impressão de que o problema foi resolvido. Mas, na vida relacional, quando uma questão se resolve apenas para um dos lados, ela raramente desaparece de fato.

Aquilo que não pôde ser verdadeiramente elaborado costuma permanecer presente na dinâmica do casal, às vezes silenciosamente, até encontrar outra oportunidade de se manifestar.

Muitas relações são abaladas não por falta de amor, mas pelo acúmulo de conversas em que cada pessoa tentou se fazer entender sem conseguir realmente escutar o outro. E quando o encontro deixa de acontecer, mesmo a conversa mais longa pode se tornar apenas duas solidões tentando se explicar.

Nesses momentos pode ser útil contar com um espaço de conversa mediado por um terceiro. Esse tipo de escuta pode ajudar a tornar mais claras as necessidades de cada lado e abrir caminhos que, dentro da dinâmica cotidiana da relação, acabam se perdendo.

Se essa reflexão fez sentido para você, explore outros textos no Demasiado Humano, onde diferentes aspectos das relações humanas são pensados com mais calma.

Marcel Cardoso – CRP: 06/161086

Psicologia Clínica – Terapia Integrativa com Base Psicanalítica

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Como terminar um relacionamento sem magoar a pessoa? https://demasiadohumano.marcelcardoso.com.br/como-terminar-um-relacionamento-sem-magoar-a-pessoa/ https://demasiadohumano.marcelcardoso.com.br/como-terminar-um-relacionamento-sem-magoar-a-pessoa/#respond Sun, 22 Feb 2026 18:14:40 +0000 https://demasiadohumano.marcelcardoso.com.br/?p=129 Terminar um relacionamento é mais complexo do que parece. No papel, frases como “quero terminar” ou “não quero mais estar […]

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Terminar um relacionamento é mais complexo do que parece. No papel, frases como “quero terminar” ou “não quero mais estar nesta relação” parecem simples. Na prática, são carregadas de afetos que pulsam internamente: medo, culpa, consideração, ambivalência.

O término é o rompimento de um laço real. É como duas cordas amarradas formando uma única. Quanto mais tempo e experiências compartilhadas, mais nós essa amarração ganha. Cada corda é feita de expectativas, necessidades e afetos. Ter alguém para se amarrar é ter onde depositar esperanças e carências, e também ser o depositário das do outro.

Quando alguém decide terminar, está propondo desfazer esse nó. Isso significa: “não vamos mais ocupar esse lugar um na vida do outro”.

Quando o vínculo ainda tem valor para uma das pessoas, esse rompimento dói. Não existe término completamente indolor quando o laço é real. Isso não depende apenas de quem termina, mas da história emocional de quem é deixado: como essa pessoa lida com perdas, separações, frustrações, abandono. Essas capacidades são construídas ao longo da vida, muito antes do relacionamento atual.

O desejo de não magoar o outro é legítimo. Mas muitas vezes ele esconde algo nosso: o medo de sermos vistos como cruéis, ingratos, abandonadores. O medo de suportar a tristeza ou a raiva do outro dirigida a nós.

A mágoa do outro pertence à experiência emocional dele. A forma como você termina pertence a você. Há términos honestos e términos violentos. Há quem termine com clareza, respeito e responsabilidade. Há quem desapareça, minta, humilhe, traia. Você não controla a dor do outro, mas é responsável pela dignidade do seu ato.

Mesmo quando fazemos tudo com cuidado, ainda pode haver tristeza, decepção ou raiva. Isso faz parte do laço. Separações reativam perdas antigas, medos antigos, fantasias antigas.

Talvez a pergunta mais profunda não seja: “Como terminar sem magoar?” Mas sim: “O que em mim teme tanto a mágoa do outro?” – “Por que suportar essa dor me parece impossível?”

Muitas vezes, a dificuldade de terminar revela conflitos antigos com culpa, abandono, rejeição ou necessidade de aprovação. O término atual apenas toca algo que já estava lá.

Se você está vivendo um término e se sente paralisado entre culpa, medo e ambivalência, talvez essa experiência mereça ser pensada com calma, não para encontrar uma fórmula perfeita, mas para entender o que esse momento diz sobre sua história emocional.

Escrevi outro texto aqui no Demasiado Humano sobre terminar um relacionamento quando ainda existe amor, que aprofunda esse tipo de conflito interno: Fim de relacionamento quando ainda existe amor – Demasiado Humano

E, se precisar de um espaço mais protegido para elaborar decisões difíceis como essa, no meu site institucional há informações sobre como funciona meu trabalho clínico com adultos que enfrentam desafios emocionais em relações afetivas e processos de separação: Início – Psicologo Marcel Cardoso

Porque, às vezes, o problema não é apenas terminar, é entender por que certos laços se tornam tão difíceis de desfazer.

Marcel Cardoso – CRP: 06/161086

Psicologia Clínica – Terapia Integrativa com Base Psicanalítica

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Por que o silêncio parece ser nossa única defesa? https://demasiadohumano.marcelcardoso.com.br/por-que-o-silencio-parece-ser-nossa-unica-defesa/ https://demasiadohumano.marcelcardoso.com.br/por-que-o-silencio-parece-ser-nossa-unica-defesa/#respond Wed, 11 Feb 2026 22:46:38 +0000 https://demasiadohumano.marcelcardoso.com.br/?p=121 Uma coisa que tem surpreendido as pessoas, tanto para o mal quanto para o bem, é a espontaneidade e a […]

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Uma coisa que tem surpreendido as pessoas, tanto para o mal quanto para o bem, é a espontaneidade e a sinceridade, especialmente quando envolvem algo que desagrada. É muito comum encontrar relatos de pessoas que buscam caminhos alternativos para não dizer uma verdade que dói, ou que simplesmente abandonam a possibilidade de serem verdadeiras em relação aos próprios incômodos com o outro.

Isso aparece em situações aparentemente simples: gestos que geraram constrangimento, hábitos que causam desgosto, ou frases ditas pelo outro que machucaram. Entre o incômodo e a comunicação do desprazer, existem conflitos psíquicos que precedem a fala.

Um dos eixos mais importantes que orientam esse funcionamento é o que chamo aqui de princípio de autopreservação, e que Donald Winnicott formulou como “Continuidade do Ser”. A psique tende a se defender daquilo que é percebido como ameaçador, tanto ameaças concretas quanto simbólicas. Nesse sentido, levantar a hipótese de que o silêncio diante de um incômodo ou de uma ofensa pode funcionar como defesa não é absurdo: muitas vezes, calar-se é uma tentativa de se proteger daquilo que se antecipa como perigoso.

De maneira concreta, a pessoa pode estar se defendendo de uma reação ainda mais inadequada do outro. Em certos contextos, isso é até inteligente, sobretudo quando se sabe que o outro reage de forma agressiva ou desorganizadora. Em outros casos, porém, a defesa é mais simbólica: um temor que já não encontra correspondência direta na realidade atual, mas que foi construído ao longo da vida para garantir integridade psíquica.

Por exemplo: optar pelo silêncio na infância como proteção em um ambiente doméstico onde o falar podia ser interpretado como provocação. Da mesma forma, em relacionamentos amorosos marcados por abusos de diferentes categorias, o silencio muitas vezes se estabelece como ‘casca’ protetora. Em ambos os casos o sujeito abdica de sua espontaneidade para evitar retaliações e tentar manter sua sobrevivência psíquica.

A questão se desloca quando percebemos que esse padrão de defesa sobrevive à própria ameaça. O que antes era uma estratégia de salvamento torna-se um anacronismo: um recurso legítimo aplicado ao contexto errado. Esse descompasso pode produzir um estado de alerta contínuo, sem necessidade objetiva.

A autopreservação é vital. É o que nos mantém vivos como sujeitos individuais e coletivos. A repetição também é necessária: sem repetir, não se aprende, não se desenvolve, não se integra. O problema não está nesses mecanismos em si, mas nos excessos, sobretudo quando operam de maneira inconsciente e desatualizada em relação à realidade atual.

Nessas condições, a pessoa pode até se sentir protegida, mas paga um custo: deixa de existir plenamente em determinadas situações, abdica da possibilidade de se colocar e sustenta vínculos onde o silêncio passa a falar mais alto do que qualquer palavra.

Em quais relações o silêncio tem sido uma escolha consciente, e em quais ele se tornou apenas um hábito difícil de romper?

Marcel Cardoso
Psicólogo clínico · CRP 06/161086
Psicoterapia de orientação psicanalítica

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Fim de relacionamento quando ainda existe amor https://demasiadohumano.marcelcardoso.com.br/fim-de-relacionamento-quando-ainda-existe-amor/ https://demasiadohumano.marcelcardoso.com.br/fim-de-relacionamento-quando-ainda-existe-amor/#respond Tue, 10 Feb 2026 23:14:17 +0000 https://demasiadohumano.marcelcardoso.com.br/?p=117 Um fenômeno da vida que acomete muitas pessoas (talvez mais do que você imagina) é o de amar alguém e, […]

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Um fenômeno da vida que acomete muitas pessoas (talvez mais do que você imagina) é o de amar alguém e, ainda assim, querer terminar com essa pessoa. Isso é comum, primeiro, porque o amor não é o único alicerce que sustenta uma relação. E também porque amar uma pessoa não significa, necessariamente, amar estar em um relacionamento com ela. Sim: essas coisas podem ser bem diferentes.


Dentro da Psicologia, existem várias pontas que eu poderia puxar para falar desse fenômeno. Admito que, quando decidi escrever sobre isso, fiquei em dúvida sobre qual delas escolher. Então fui pelo caminho que, para mim, é o mais seguro, porque é o que eu mais estudo e trabalho: ambivalência emocional.

Ou, como eu gosto de chamar, “querer, mas não saber se quer”. E tem um verso da Gal Costa que diz exatamente isso, e que eu já comentei em outro texto: “Quero é ir embora, quero dar o fora, e quero que você venha comigo.”


A gente costuma imaginar que as decisões afetivas deveriam ser lineares: ou você ama e fica, ou não ama e vai embora. Mas a mente não funciona assim. A nossa vida psíquica recebe estímulos e experiências de diferentes partes da vida e da relação, e disso vão se formando pensamentos, imagens, sensações e decisões.


Você pode nutrir afeto, carinho e proteção por alguém, e isso produzir algo simples como: “eu amo essa pessoa”. Ao mesmo tempo, certas atitudes, valores ou modos de existir do outro podem não estar em sintonia com os seus, e aí aparecem pensamentos como “somos diferentes”, “não dá desse jeito” ou até um “não sei” que insiste.


E tem um ponto muito comum, e muitas vezes silencioso: relações com amor podem ser, ainda assim, assimétricas. Uma pessoa se doa mais, se preocupa mais, sustenta mais, tenta mais. Com o tempo, isso gera desgaste, sensação de não ser reconhecido e, em alguns casos, uma espécie de tristeza irritada: não é que o amor acabou, é que viver a relação começou a custar caro demais.


Dentro da nossa cabeça, essas partes não ficam necessariamente integradas. Elas aparecem em momentos diferentes do dia, de acordo com o que acontece na relação, até que uma delas começa a ganhar mais destaque. É aí que surge algo como: “eu amo essa pessoa, mas quero terminar”. Esse pensamento é totalmente plausível quando existe afeto real, mas também existe a percepção de assimetria, desalinhamento de planos, falta de reciprocidade, ou qualquer outro elemento que, com o tempo, pesa mais do que o próprio amor.


E aqui entra uma palavra que eu gosto: força. Porque, assim como no universo, a nossa mente também vive relações de força. Só que, na vida emocional, “força” não é só argumento racional. Às vezes é culpa pela ideia de ferir alguém que você ama. Às vezes é medo do luto, porque terminar implica perder não só a pessoa, mas a vida que você imaginou. Às vezes é uma fantasia de reparação, a ideia de que, se você insistir mais um pouco, tudo se ajeita. E às vezes é o próprio vínculo: o amor continua ali, representativo o suficiente para interromper a decisão, mesmo quando uma parte de você já percebe que não dá para ficar do mesmo jeito.


Amar uma pessoa e querer terminar a relação é algo humano. No fundo, isso costuma indicar que existem outras coisas além do amor pesando na balança. E isso importa, porque não se vive só de amor: também se vive de reciprocidade, simetria, projeto, respeito, cuidado, possibilidade de futuro. A vida não é simples a ponto de caber em um manual. E certas decisões pedem menos autojulgamento, mais autoaceitação, e a coragem de olhar com calma para o peso de cada coisa na sua vida, do jeito que ela está agora.


Talvez ajude se você se fizer perguntas como:
O que, exatamente, está pesando contra a continuidade, e há quanto tempo isso pesa?
Eu amo a pessoa ou eu amo a ideia do que a relação poderia ser?
Eu estou tentando salvar a relação por amor, ou por culpa?
Se nada mudasse daqui a seis meses, eu conseguiria continuar?
O que eu perco se eu for embora, e o que eu perco se eu ficar?


Este texto não tem a função de te dar uma resposta pronta. Mas espero que ajude a compreender o que você pode estar vivendo e a trazer mais clareza sobre os próximos passos.

No fim, vale lembrar: antes de ser parte de um casal, você é você. A relação é parte da sua vida, não a sua vida inteira.

Marcel Cardoso – CRP: 06/161086

Psicologia Clínica – Terapia de Orientação Psicanalítica

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Como esquecer alguém que você ama? https://demasiadohumano.marcelcardoso.com.br/como-esquecer-alguem-que-voce-ama/ https://demasiadohumano.marcelcardoso.com.br/como-esquecer-alguem-que-voce-ama/#respond Mon, 09 Feb 2026 13:31:07 +0000 https://demasiadohumano.marcelcardoso.com.br/?p=115 Entenda por que esse desejo é uma parte ativa da sua cicatrização emocional Quando uma pessoa sofre com o fim […]

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Entenda por que esse desejo é uma parte ativa da sua cicatrização emocional

Quando uma pessoa sofre com o fim indesejado de um relacionamento, é comum que a lembrança da pessoa amada gere memórias e dores. Um impulso esperado nesses casos é o de tentar esquecer a pessoa o mais rápido possível.

Isso ocorre não porque a pessoa quer realmente esquecer o outro, mas porque quer parar de sofrer.
Lembrar do outro = sofrer.
Logo, esquecer a pessoa = reduzir o sofrimento.

Isso é humano. E, dependendo do caso, pode ser entendido como um movimento de autopreservação, do self tentando se proteger da dor.

Entretanto, há uma armadilha psíquica bastante refinada em funcionamento nesses momentos: desejar esquecer o outro, por si só, já é pensar na pessoa. Ou seja, quando se tenta esquecer, está-se lembrando.


Outro ponto importante a considerar: quanto mais lutamos contra uma lembrança ou um pensamento, quanto mais resistimos, mais esse pensamento tende a se manter. É como se, ao lutar contra, estivéssemos agarrando essa lembrança. É irônico. E dói.

Esquecer alguém após o encerramento de um relacionamento é um processo. Infelizmente, não existe uma fórmula pronta para isso. No início, a lembrança está muito viva. A dor também.

Com o passar do tempo, a mente começa a se distanciar do último episódio do relacionamento. Outros capítulos da vida vão surgindo, e tudo vai ficando mais espaçado, menos intenso. A lembrança não some, mas a ativação emocional tende a oscilar e, em muitos casos, diminuir.


Esquecer a pessoa deixa de ser uma urgência porque a dor emocional deixa de ser aguda. É como uma ferida no joelho. Na hora em que machuca, sentimos uma onda de choque e a percepção clara de que algo deu errado. Nos primeiros momentos, a dor é grande e tudo o que queremos é que ela acabe.

Depois de um tempo, ainda dói, mas menos. Mais adiante, só dói quando mexe demais. Passados alguns dias, você até esquece que está cicatrizando, e só sente dor quando cutuca e rompe a cicatriz.

A dor emocional pelo fim de uma relação funciona de forma semelhante. Vai doer. Recursos de apoio ajudam para que não complique. Com o tempo, a ferida cicatriza e a dor vai reduzindo.

Se a dor estiver muito elevada a ponto de se tornar insuportável, ou se se mantiver intensa sem redução ao longo das semanas, a ponto de comprometer o funcionamento da vida, é recomendável buscar ajuda.

Esquecer não é apagar alguém da memória. É aprender a lembrar sem que a lembrança machuque. E isso envolve tempo.

Se este texto tocou algo em você, talvez outros temas próximos também ajudem a compreender esse momento com mais calma:

Quando a perda atinge a autoestima – Demasiado Humano

Quando o término não foi escolha sua – Demasiado Humano

Fim de relacionamento quando ainda existe amor – Demasiado Humano

Às vezes compreender sozinho não basta. Quando a dor de um termino continua se repetindo na vida emocional, conversar em um espaço clínico pode ajudar a elaborar a experiência com mais clareza e menos sofrimento:

👉 Início – Psicologo Marcel Cardoso

Marcel Cardoso · CRP 06/161086

Psicologia Clínica · Terapia orientada pela Psicanálise

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Quando a perda atinge a autoestima https://demasiadohumano.marcelcardoso.com.br/quando-a-perda-atinge-a-autoestima/ https://demasiadohumano.marcelcardoso.com.br/quando-a-perda-atinge-a-autoestima/#respond Sun, 08 Feb 2026 18:24:34 +0000 https://demasiadohumano.marcelcardoso.com.br/?p=112 A dor que se sente quando se perde um relacionamento A experiência de término pode se tornar mais difícil quando […]

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A dor que se sente quando se perde um relacionamento

A experiência de término pode se tornar mais difícil quando toca diretamente a autoestima. Nesses casos, podem surgir sentimentos de culpa excessiva (“a culpa foi minha”, “eu não devia ter sido assim”), autodepreciação, vergonha, fixação no ex-parceiro e, em alguns casos, uma tristeza mais intensa e persistente.


Aqui vale lembrar algo fundamental: não temos controle sobre as decisões do outro. A pessoa tomou a decisão que tomou por motivos próprios. Claro, revisar nossas atitudes pode ser importante para buscar relações diferentes no futuro. Mas isso não garante que alguém ficaria.

Às vezes, a pessoa simplesmente queria ir embora, e iria mesmo que você tivesse agido de outra forma. Além disso, esse tipo de autoanálise tende a ser mais produtivo depois que os picos emocionais diminuem. No auge da dor, o que costuma falar mais alto não é reflexão, mas culpa e autojulgamento.

Dois extremos também podem aparecer: a idealização ou a desvalorização total do parceiro.
De um lado, pensamentos como “nunca mais vou amar alguém assim”. Do outro, “essa pessoa nunca significou nada para mim”.


Ambos costumam ser modos do self lidar com a dor. Por isso, vale tentar voltar ao centro e colocar os pés no chão. O outro realmente nunca foi importante? Ou isso é uma forma de se proteger da dor? Você realmente nunca mais encontrará alguém assim? Então como encontrou essa pessoa em primeiro lugar?


Calma nessas horas. Emoções influenciam fortemente nossos pensamentos, e no término estamos emocionalmente ativados. Muitos julgamentos nascem mais dos afetos do que de uma leitura realista da situação.

Também pode haver negação. A pessoa age “como se não tivesse acabado”. Em geral, ela sabe que acabou, mas ainda dói demais aceitar. Trata-se de uma defesa psíquica contra um mal-estar intenso.


A questão não é se essa defesa é boa ou ruim em si. Em alguns momentos, ela pode ser necessária como forma de autopreservação. O problema surge quando se estende além do que é funcional, impedindo a elaboração da perda e mantendo a pessoa presa a uma relação que já terminou.

No final das contas, quando a perda atinge a autoestima, o sofrimento não é apenas pela relação que acabou, mas pelo que ela representava dentro de nós. Isso não se resolve com conclusões rápidas nem com julgamentos duros sobre si mesmo. Em geral, o que ajuda é conseguir atravessar esse tempo com menos violência interna, reconhecendo que sentir-se abalado não é fraqueza, mas efeito de um vínculo que teve importância. A elaboração não vem de se convencer de algo, mas de, pouco a pouco, conseguir sustentar a própria experiência sem se destruir por ela.

Marcel Cardoso · CRP 06/161086

Psicologia Clínica · Terapia Psicodinâmica

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Luto após um término indesejado do relacionamento.

Essa é, talvez, a reação mais esperada após um término. Ela pode envolver tristeza recorrente, saudade e dor psíquica.


É comum haver uma oscilação entre o desejo de retomar a relação e a aceitação de que ela acabou. Isso costuma ser vivido como confusão: “não sei o que quero”, “uma hora quero uma coisa, outra hora quero outra”. Mas é importante saber que esses dois polos podem coexistir dentro de você ao mesmo tempo.


O término é recente. Não houve tempo suficiente para esquecer totalmente e seguir adiante, mas também a mente não fica parada, ela já começa, ainda que de forma imperfeita, a elaborar a perda.


Ter consciência disso ajuda a reconhecer padrões de impulsividade e a evitar decisões tomadas exclusivamente a partir de um dos polos emocionais, que muitas vezes podem gerar arrependimento e culpa depois. Aqui, a questão central não é “o que fazer”, mas conseguir integrar desejos e afetos antes de agir.


Com o tempo, é esperado que essa oscilação diminua, tanto pelo distanciamento temporal em relação ao término quanto pelo próprio processo de elaboração. Às vezes, a realidade também ajuda, lembrando você de aspectos positivos de não estar mais naquela relação.

Marcel Cardoso · CRP 06/161086

Psicologia Clínica · Terapia Psicodinâmica

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